terça-feira, 7 de maio de 2013

Resenha: A Menina que Roubava Livros - Markus Zusak



“Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.”

Título: A Menina que Roubava Livros (The Book Thief)
Autor: Markus Zusak
Páginas: 499
Editora: Intriseca

A menina que roubava livros, “Quando a morte conta uma história, você tem que parar para ouvi-la”. Narrado por ninguém ou nada menos que a Morte, esse é um dos meus livros favoritos e talvez o mais bonito que eu já li.

Na Alemanha Hitlerista, Liesel Meminger, uma menina de nove anos, é levada pela mãe para uma pequena cidade chamada Molching.

No percurso de trem até lá, o irmão mais novo de Liesel morre no meio da noite, após um acesso violento de tosse. Ninguém está acordado para ver, ninguém além da morte que vem buscá-lo, e da pequena menina que a surpreende, quando ela pega a pequena alma nos braços.

Essa é a primeira vez que a morte e Liesel se encontram, e a primeira vez que Liesel lhe escapa. No total, seriam três.

Quando a menina e a mãe param em uma cidade do caminho para enterrar o pequeno, contrariando seu bom senso, a morte volta para acompanhar o enterro. Curiosa em rever a menina. Ela observa quando ela se afasta com a mãe e quando se abaixa para pegar na neve o pequeno livro preto que um dos coveiros deixara cair. “O Manual do Coveiro”, seu primeiro livro roubado. Ela o agarra firme junto ao peito, embora não soubesse ler.

Ao chegarem a Molching, as duas são levadas a um escritório onde sua mãe é interrogada. Liesel não entende nada, apenas nota que a palavra “comunista” se repete várias vezes. Por fim, se despedem e Liesel é levada a rua Himmel, onde é entregue aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann. 

Hans é pintor desempregado e toca acordeão. Um homem aparentemente sem valor algum, que gosta de enrolar cigarros e socorre Liesel no meio da noite quando ela acorda aos gritos por causa de pesadelos. Rosa lava e passa para fora, é rabugenta e especialista em dar apelidos relacionados a porcos a todas as pessoas a sua volta, inclusive à sua filha de criação.

Liesel, magra, pálida, com olhos perigosamente escuros vai à escola com Rudy Steiner e seus cinco irmãos que moram na casa vizinha as do Hubermann. Como criança nova na vizinhança, ela é colocada como goleira no time de futebol. Defende um pênalti cobrado por Rudy e na sequência ganha uma bolada de neve na cara do garoto de cabelo loiro limão e olhos azuis esbugalhados. “A única coisa pior que um menino que detesta a gente. Um menino que ama a gente.”

A segunda guerra segue e o próximo livro que Liesel rouba é de uma pilha que está sendo queimada. O pai a ensina ler de madrugada e um judeu que escondem no porão, o amigo sobre quem ela prometeu nunca falar, escreve e desenha para ela.

Fazendo do ato de roubar livros e aprender a lê-los seu propósito e ocupação, Liesel enfrenta as tristezas e miséria da guerra, sempre com Rudy ao seu lado, seu melhor amigo, parceiro no crime e o menino que tenta lhe roubar um beijo.

Enquanto isso, a Morte faz uma pausa e pega um capítulo como diário:

“DIÁRIO DA MORTE: OS PARISIENSES

Veio o verão.

Para a menina que roubava livros, tudo corria bem. Para mim, o céu era da cor dos judeus.

Quando seus corpos acabavam de vasculhar a porta em busca de frestas, as almas subiam. Depois de suas unhas arranharem a madeira e, em alguns casos, ficarem cravadas nela, pela pura força do desespero, seus espíritos vinham em minha direção, para meus braços, e galgávamos as instalações daqueles chuveiros, escalávamos o telhado e subíamos para a largueza segura da eternidade. E continuavam a me alimentar. Minuto após minuto. Chuveiro após chuveiro.

Nunca me esquecerei do primeiro dia em Auschwitz, da primeira vez em Mauthausen. Nesse segundo local, com o correr do tempo, também passei a pegá-los no fundo do grande penhasco, onde suas fugas acabavam terrivelmente mal. Havia corpos quebrados e meigos corações mortos. Ainda assim, era melhor do que o gás. Alguns deles eu apanhava ainda a meio caminho da descida. Salvei você, pensava comigo mesma, segurando suas almas no ar, enquanto o resto de seu ser — suas carcaças físicas — despencava na terra. Eram todos leves, como cascas de nozes vazias. E um céu enfumaçado nesses lugares. O cheiro fazia lembrar uma fornalha, mas ainda muito frio.

Estremeço ao recordar — ao tentar desrealizar aquilo.

Bafejo ar quente nas mãos, para aquecê-las.

Mas é difícil mantê-las aquecidas quando as almas ainda tiritam.

Deus.

Sempre pronuncio esse nome, ao pensar naquilo.

Deus.

Duas vezes, eu repito.

.... “.

A Menina que Roubava Livros é uma narrativa feita como se fosse conto, poesia, romance, ficção, realidade. As melhores formas de contar uma história foram todas usadas em uma única, o que torna impossível não sentir esse livro. Em um minuto você chora, noutro você ri, depois pragueja, fica feliz e tem o coração torcido e quebrado em um milhão de lágrimas, para depois se juntar com fé de novo.

Graças a uma Morte poeta, um livro campeão em me fazer chorar.

“E não sou muito boa nessa história de consolar, especialmente quando tenho as mãos frias e a cama é quente. Carreguei-o com delicadeza pela rua destroçada, com sal nos olhos e o coração mortalmente pesado.”

Um livro denso, que fala sobre a força e ao mesmo tempo a crueldade humana. Que ensina o valor de um “eu sinto muito” e o poder do amor e amizade.

Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.”

A Morte.

5 comentários:

  1. Simmm, ótimo livro, mas não só a história se torna densa como a própria narrativa. Tive que pegar e devolver o livro várias vezes na biblioteca até conseguir terminar de ler, mas não me arrependo. Um livro de emoções e ensinamentos.

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  2. Esse eu li (acredite se quiser!! hahaha) é demais mesmo!! Bejoss

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  3. Desconheço esse. Preciso ler. Me empresta? ;)

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  4. Se o mano Cado achar o exemplar dele que ele alega até hoje que está comigo eu empresto! rsrsrs

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