“Eu poderia me
apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me
conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de
variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você,
com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma
cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.”
Título: A Menina que Roubava Livros (The Book Thief)
Autor: Markus Zusak
Páginas: 499
Editora: Intriseca
A menina que roubava livros, “Quando a morte conta uma
história, você tem que parar para ouvi-la”. Narrado por ninguém ou nada menos que
a Morte, esse é um dos meus livros favoritos e talvez o mais bonito que eu já
li.
Na Alemanha Hitlerista, Liesel Meminger, uma menina de nove
anos, é levada pela mãe para uma pequena cidade chamada Molching.
No percurso de trem até lá, o irmão mais novo de Liesel morre
no meio da noite, após um acesso violento de tosse. Ninguém está acordado para
ver, ninguém além da morte que vem buscá-lo, e da pequena menina que a
surpreende, quando ela pega a pequena alma nos braços.
Essa é a primeira vez que a morte e Liesel se encontram, e a
primeira vez que Liesel lhe escapa. No total, seriam três.
Quando a menina e a mãe param em uma cidade do caminho para
enterrar o pequeno, contrariando seu bom senso, a morte volta para acompanhar o
enterro. Curiosa em rever a menina. Ela observa quando ela se afasta com a mãe
e quando se abaixa para pegar na neve o pequeno livro preto que um dos coveiros
deixara cair. “O Manual do Coveiro”, seu primeiro livro roubado. Ela o agarra
firme junto ao peito, embora não soubesse ler.
Ao chegarem a Molching, as duas são levadas a um escritório
onde sua mãe é interrogada. Liesel não entende nada, apenas nota que a palavra
“comunista” se repete várias vezes. Por fim, se despedem e Liesel é levada a
rua Himmel, onde é entregue aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann.
Hans é pintor desempregado e toca acordeão. Um homem
aparentemente sem valor algum, que gosta de enrolar cigarros e socorre Liesel
no meio da noite quando ela acorda aos gritos por causa de pesadelos. Rosa lava
e passa para fora, é rabugenta e especialista em dar apelidos relacionados a
porcos a todas as pessoas a sua volta, inclusive à sua filha de criação.
Liesel, magra, pálida, com olhos perigosamente escuros vai à
escola com Rudy Steiner e seus cinco irmãos que moram na casa vizinha as do Hubermann.
Como criança nova na vizinhança, ela é colocada como goleira no time de
futebol. Defende um pênalti cobrado por Rudy e na sequência ganha uma bolada de
neve na cara do garoto de cabelo loiro limão e olhos azuis esbugalhados. “A
única coisa pior que um menino que detesta a gente. Um menino que ama a gente.”
A segunda guerra segue e o próximo livro que Liesel rouba é
de uma pilha que está sendo queimada. O pai a ensina ler de madrugada e um
judeu que escondem no porão, o amigo sobre quem ela prometeu nunca falar,
escreve e desenha para ela.
Fazendo do ato de roubar livros e aprender a lê-los seu
propósito e ocupação, Liesel enfrenta as tristezas e miséria da guerra, sempre
com Rudy ao seu lado, seu melhor amigo, parceiro no crime e o menino que tenta
lhe roubar um beijo.
Enquanto isso, a Morte faz uma pausa e pega um capítulo como
diário:
“DIÁRIO DA MORTE: OS PARISIENSES
Veio o verão.
Para a menina que
roubava livros, tudo corria bem. Para mim, o céu era da cor dos judeus.
Quando seus corpos
acabavam de vasculhar a porta em busca de frestas, as almas subiam. Depois de
suas unhas arranharem a madeira e, em alguns casos, ficarem cravadas nela, pela
pura força do desespero, seus espíritos vinham em minha direção, para meus
braços, e galgávamos as instalações daqueles chuveiros, escalávamos o telhado e
subíamos para a largueza segura da eternidade. E continuavam a me alimentar.
Minuto após minuto. Chuveiro após chuveiro.
Nunca me esquecerei
do primeiro dia em Auschwitz, da primeira vez em Mauthausen. Nesse segundo
local, com o correr do tempo, também passei a pegá-los no fundo do grande
penhasco, onde suas fugas acabavam terrivelmente mal. Havia corpos quebrados e
meigos corações mortos. Ainda assim, era melhor do que o gás. Alguns deles eu
apanhava ainda a meio caminho da descida. Salvei você, pensava comigo mesma,
segurando suas almas no ar, enquanto o resto de seu ser — suas carcaças físicas
— despencava na terra. Eram todos leves, como cascas de nozes vazias. E um céu
enfumaçado nesses lugares. O cheiro fazia lembrar uma fornalha, mas ainda muito
frio.
Estremeço ao
recordar — ao tentar desrealizar aquilo.
Bafejo ar quente nas
mãos, para aquecê-las.
Mas é difícil
mantê-las aquecidas quando as almas ainda tiritam.
Deus.
Sempre pronuncio
esse nome, ao pensar naquilo.
Deus.
Duas vezes, eu
repito.
.... “.
A Menina que Roubava
Livros é uma narrativa feita como se fosse conto, poesia, romance, ficção,
realidade. As melhores formas de contar uma história foram todas usadas em uma
única, o que torna impossível não sentir esse livro. Em um minuto você chora,
noutro você ri, depois pragueja, fica feliz e tem o coração torcido e quebrado
em um milhão de lágrimas, para depois se juntar com fé de novo.
Graças a uma Morte
poeta, um livro campeão em me fazer chorar.
“E não sou
muito boa nessa história de consolar, especialmente quando tenho as mãos frias
e a cama é quente. Carreguei-o com delicadeza pela rua destroçada, com sal nos
olhos e o coração mortalmente pesado.”
Um livro denso, que
fala sobre a força e ao mesmo tempo a crueldade humana. Que ensina o valor de
um “eu sinto muito” e o poder do amor e amizade.
“Fico
impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há
torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e
procurando, e encontrando.”
A Morte.

Simmm, ótimo livro, mas não só a história se torna densa como a própria narrativa. Tive que pegar e devolver o livro várias vezes na biblioteca até conseguir terminar de ler, mas não me arrependo. Um livro de emoções e ensinamentos.
ResponderExcluirEsse eu li (acredite se quiser!! hahaha) é demais mesmo!! Bejoss
ResponderExcluirDesconheço esse. Preciso ler. Me empresta? ;)
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirSe o mano Cado achar o exemplar dele que ele alega até hoje que está comigo eu empresto! rsrsrs
ResponderExcluir